Imerso nas trevas, absorto pelas sombras, derrotado pela cruel idéia de existir... Escuridão! Essa que parece se alastrar do seu interior para o visível. Assim, fazendo-o tatear as gélidas paredes, caminhar com dificuldade por suportar um peso que nunca pedira para carregar. Então vem um momento de estima, tão sádico, mas tão verdadeiro. A estranha sensação da fugir de luz, sentimento tão absurdo esse, porém reconfortante, apreciável, negar a luz para ter longos negros períodos, talvez em busca de algo que não exista.
No entanto, com o tempo o sombrio é alvo da instabilidade, as trevas sofrem terríveis mutações. De força titânica ela se apodera, vem a esmagar com seu poderio os que estão em seu interior, tiranizando, escravizando e triturando-os. Pobres aqueles que se apegam a ela. Ela se recria de si mesma, de macabras formas ela vem a interrogar seus vassalos, sucumbindo-os com sua presença.
Em busca de corrupção ela indaga seus inferiores. Oferece a totalidade, o regresso a luz, de riqueza a poder, tanto sabedoria como imortalidade, de uma única vez, felicidade infinita e virtudes inalcançaveis. Claro, qualquer coisa em troca do âmago do ser, de sua fortuna intelectual, imaginação, também a memória, amores, suas alegrias passadas, dos seus medos e de suas fraquezas tão únicas.
Não! Grita o homem, o diz sem refletir uma única vez, não troca sua mente por nada, não a troca por tudo, nem por outras mil delas, jamais. Ele a ama, grita para o vazio, para a demôniaca voz que o persegue. Prova que ama a si próprio, estinguindo com o som de sua voz - capaz de desmoronar demônios e seus impérios, destronar deuses e destituir seus impérios - a gigante onipotente escuridão.
Mostra-se um Aquíles, também com seu ponto fraco, mas esse não se localiza no tendão e sim na sua apreciação pelas trevas. No entanto, a escuridão não pode ofertar a si mesma para aqueles que a carregam como uma divindade no seu âmago, pois se eles ainda existem, é somente por causa dela, da escuridão, é somente por causa dela que eles ainda insistem em viver, mesmo que imersos nas trevas.